sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

BAIRRO DO TURVINHO

Localizado nas encostas da Serra de Paranapiacaba, no município de São Miguel Arcanjo, o Bairro do Turvinho tem como padroeiros dois santos fortes: São Roque e São Pedro.
O nome do Bairro deriva de uma forma carinhosa de denominar o lugar próximo a nascente do Rio Turvo, na serra do Paranapiacaba. Este rio que desagua no Rio Paranapanema e após receber as águas do Rio Pinhal passa a chamar-se Rio Itapetininga, tem um curso de aproximadamente 115 km.


O GEÓLOGO AMERICANO JAMES MONROE KEITH E AS CABECEIRAS DO TURVINHO.

Quem deixou alguma coisa escrita sobre este geólogo americano radicado em São Miguel Arcanjo foi o Major Luiz Válio, sob o pseudônimo de J. Severo, nas páginas do periódico “ O Progresso”.
Dito americano andou percorrendo a Província de São Paulo em todos os sentidos, estudando-lhe o subsolo e descobrindo coisas maravilhosas.
Acreditava James que o Brasil encerrava nas suas entranhas tesouros mais maravilhosos que os antigos contos de fadas, não sendo preciso nem a lâmpada de Aladim e nem a alavanca de Rockfeller ou a perspicácia comercial dos Rotchilds para trazê-los à superfície e transformá-los em moedas sonantes, com as quais tornariam nosso povo livre perante os meios financeiros internacionais.
James combatera de armas em punho contra o governo de Lincoln na célebre Guerra de Secessão - a famosa guerra civil entre os americanos do norte e do sul durante o mandato de Lincoln (1.861-1.865). Foi este, aliás, o principal motivo de ter deixado a América do Norte.
Segundo J. Severo, James era meigo e simpático, e possuía o que quer que fosse de atraente; conheceu o pai do escritor, Dom Francisco Domingos Vito Paschoal Válio Trombetti, em 1.869. Nessa época, Domingos Trombetti já residia e tinha sua propriedade na estrada do Turvo, em São Miguel Arcanjo.
Foi em 1.870 que James comprou um sítio na antiga Fazenda Velha. 
Em 1.889, com a emancipação político - administrativa do município, naturalizou-se brasileiro, qualificando-se como eleitor e votando com o Partido Dissidente fundado por Prudente de Moraes.
James deve ter falecido na década de 20.
Na edição de 23 de outubro de 1.923 do jornal Tribuna Popular, de Itapetininga, lá se vê o extenso edital de arrematação de seus bens, já que havia falecido sem deixar herdeiros.
Esses bens estavam livres e desembaraçados de quaisquer ônus e eram os seguintes:
- Um sítio de terras lavradias em matas virgens, alguns pedaços de terras inferiores e com diversas camadas de jazidas auríferas que revestem as margens de vários de seus ribeirões, com alguns ranchos em ruínas, que são as únicas benfeitorias existentes, sítio esse denominado “Cabeceiras do Turvinho”, no município de São Miguel Arcanjo, cujas terras se acham abrangidas pelas vertentes dos Ribeirões São Domingos, Grande, Albano, Bom Sucesso, Lavrinhas e outros menores confluentes 
do Rio Turvinho, compreendidos dentro das divisas seguintes: a principiar na margem do Rio Turvinho, na ponta do Espigão Mestre, que forma as vertentes entre os Ribeirões São Domingos e Grande e aí na direção sul segue a divisa por este Espigão até o alto da Serra do Paranapiacaba e daí segue a divisa pelo oriente na direção de dita Serra, abrangendo todas as águas vertentes dos Ribeirões São Domingos, Bom Sucesso e Albano até frontear o Espigão que forma as vertentes entre dito Ribeirão Albano, da Lavrinha e do Passarão, daí em direção ao este pelo Espigão que abrange as águas do Ribeirão Albano e do Rio Turvinho até frontear o ponto de partida, donde desce em direção ao mesmo Rio Turvinho, sendo que são confrontantes das terras descritas alguns terrenos devolutos e algumas pessoas cujos nomes são ignorados; os Ribeirões Albano e Bom Sucesso, de água especial, contam muitos córregos e nascentes que banham as terras marginais, com algumas cachoeiras, e nos leitos e margens de ditos Ribeirões, em vários lugares, contém jazidas e cascalhos auríferos e outros minerais aproveitáveis; as terras são revestidas de capoeiras e matas virgens, contendo madeira de lei, próprias para culturas de cereais e gramíneas, em alguns lugares férteis e em outros mais fracos, calculados em 2.100 (dois mil e cem) alqueires, que foram avaliados à razão de trinta e cinco mil réis o alqueire, pelo preço total de 73:500$000 ( setenta e três contos e quinhentos mil réis). As jazidas auríferas verificadas às margens dos Ribeirões Bom Sucesso e Albano, estimadas pelo preço e quantia de vinte contos de réis (20:000$000). Os quatro ranchos toscos foram avaliados em 8 mil réis e todos pelo preço de 93 contos, quinhentos e oito mil réis (93:508$000).
Os bens descritos e avaliados foram à primeira praça por aquele valor total, e não encontrando licitante, vão a esta segunda praça no lugar, dia e hora designados.
O Juiz de Direito da comarca de Itapetininga, o Dr. Esaú Corrêa de Almeida Moraes.
Cerca de um ano depois, um indivíduo de nome ANTONIO EXEB requereu habilitação de crédito para requerer o Espólio arrecadado por falecimento de James.
Parece que lhe foi negado.
A verdade é que as terras que pertenceram ao geólogo americano JAMES MONROE KEITH acabaram ficando para a Fazenda do Estado, segundo propalava a imprensa da época no ano de 1.929. 
A posse das terras ainda se discutia no próprio inventário dele.

QUEM REALMENTE TOMOU POSSE DESSAS TERRAS?
SERIAM MESMO ESPECIAIS AS ÁGUAS QUE BROTAVAM DOS RIBEIRÕES ALBANO E BOM SUCESSO?

James Monroe Keith, segundo se pode ver no edital acima referido, mantinha a posse de terras onde se localizavam os Ribeirões Albano e Bom Sucesso, de água especial.

SERIAM DE JAMES TAIS TERRAS?
Consta da Revista do Instituto Histórico e Genealógico de S. Paulo, bem à página 125, explicações dadas por Dona Augusta Galvão:
“ Em 1.868, aqui chegou um norte-americano - James Monroe Keith - o qual foi logo admitido como amigo da família. Este senhor andou explorando os sertões desta zona e achou que uma parte dele lhe serviria para trabalhos de mineração. Sabendo que o Tenente Urias tinha posse no dito sertão, entraram em negociações e adquiriu uma parte do Sítio Boa Vista, cuja divisa ficou sendo por uma serra denominada Fartura até a barra do Ribeirão Cachorros Novos, no Rio Verde. Essa transação deu-se em 1.870. Em dezembro de 1.879 faleceu o velho Tenente Urias procedendo-se o inventário dos bens deixados. O inventariante José Galvão não estava bem ao par de tal negócio e pensava que o Tenente Urias havia vendido a James toda a Fazenda Boa Vista. Este, o motivo único da sonegação. As demais fazendas - Ribeirão Fundo, Assungui, parte da Moinho e a de Juquiá, situada na confluência do Rio São Lourenço com o Juquiá, foram inventariadas e consta do inventário procedido na Comarca de Itapetininga em 1.882. É o que se me cumpre informar. Papéis anexos a esta carta: 1 escritura de 1.848, uma carta também de 1.848, 1 carta de Francisco Ribeiro, 1 carta de Antonio Albino de S. Nogueira, um papel de medição do Assungui e uma carta de José Giorge, recebida em resposta à oferta que lhe fiz da cachoeira de que se quis apropriar por meio de ação de usucapião em Iguape, legalmente contestada por nós herdeiros daqui. Sem outros com muita estima e apreço sou a parente muito grata. A) Augusta Galvão.”

OBS: a data da morte do Tenente Urias estaria errada nesta carta de Augusta. Segundo consta, ele faleceu em 1.881, aos 08 de setembro.

EDUCAÇÃO
A primeira professora do bairro chamava-se Luiza Como Terra e a sala de aulas ficava numa sala alugada de José Nogueira de Medeiros. Depois dela, a professora Ismênia de Campos também esteve lecionando no Bairro, conforme publicação no jornal Estado de São Paulo, de 1.933.
A primeira ponte sobre o Rio Turvinho no lugar denominado Ponte do Pintado foi construída em 1.923 e custou cerca de 300 mil réis aos cofres públicos.
Foram os primeiros comerciantes no lugar o Horácio Correa Oliveira, o Camilo Moisés, rico comerciante de carvão, e José Toledo com seus armazéns de secos e molhados. Toledo, bem à chegada do bairro, instalava-se do outro lado da empresa de Força e Luz Sul Paulista.
Berço de agricultores como: Ponciano José Francisco de Lara, Antonio Alves Carriel, Manoel Teixeira, Salvador Victorino de Medeiros, Modesto Soares da Silva e Pedro de Souza Nogueira, este, filho de Mizael Izídio Machado, da genealogia do Tenente Urias, plantador de algodão, banana, feijão, milho, cana e criador de cabritos e Inspetor de Quarteirão.
Pedro possuiu lá um tropeiro todo ele cercado de pau a pique que causava inveja de tão imenso que era. E além disso tudo, fazia romarias, rezava terço, era o sócio de número 327 da Rádio Aparecida Ltda.
Também de lá a família de Fermino Brandino, casado com Juventina, cujo filho, José, foi entrevistado no ano de 2.008, pouco antes de falecer – aos 19 de junho faria 100 anos de idade - por Luiza Valio. Aos dez anos estilingava passarinhos, mas já trabalhava como gente grande. Foi com o pai, pequeno sitiante, que aprendeu que um homem trabalhador, antigamente, só tinha um documento: mãos calejadas. Era cabo de enxada, cabo de foice, cabo de arado, cabo de facão, cabo de enxadão, carpindo e roçando, plantando cana para adoçar o café ou milho e feijão para negociar com o dono da venda, o Chico Marques. Professora? 
Na sua época, lembrava da Didica, paulistana da gema e parente do gerente da empresa do Comendador José Giorgi, o Nestor Toledo, ela que foi contratada para dar aulas no período noturno, mas sem proveito algum, pois a rapaziada dormia na carteira de tanto cansaço depois de um dia todo trabalhando na roça.
Na revolução constitucionalista, José Brandino foi nomeado para fazer policiamento no bairro. Dizia que aprendeu muito com os homens de barbas longas, inclusive a fazer parto.
Diversão no bairro, no passado, era o fandango.
José Brandino tinha uma ‘tirada’ sobre a vida que é importante imortalizar. 
Dizia: - ‘É preciso injetar uma dose de alegria e satisfação para aquele espírito que convive com a gente, se não ele se cansa e depressa vai em busca de outro corpo’.
No ano de 1.953, o Bairro foi alvo de uma grande queimada, conforme foi noticiado pelo jornal "O Estado de São Paulo", em data de 30 de agosto de 1.953, no seguinte teor:
"Lavra, neste município, há cerca de 15 dias, incêndio de grandes proporções, tendo recrudescido de violência nestes últimos 3 dias, por ação do vento noroeste.
O incêndio foi provocado por queimadas e atingiu numerosas propriedades agrícolas, como Fazenda Agropecuária, Fazenda Balboni e matas do Lajeado, Justinada, Alegre, Turvinho, Facão, Capão Rico, etc.
Os prejuízos são consideráveis, pois nestes últimos 3 dias o fogo atingiu pastagens, casas de lavradores e carvoarias".
Na década de 60, lá pagava impostos o José Terrenci, que possuía um bar. 
Pela portaria número 22, de 20 de junho de 1.973, o prefeito José França constituiu uma Comissão para avaliar um imóvel situado no bairro, a ser desapropriado pela municipalidade, necessário à construção de um prédio escolar.
Faziam parte da Comissão: Alcindo dos Santos Terra, Miguel Dias da Silva e Dirceu Profeta Paes. 
No dia 31 de março de 1.974, às 9 horas, lá foi inaugurada a Ponte de Cimento Armado sobre o Rio Turvinho concluída meses antes.
Nesse mesmo dia, às 10 horas, foi inaugurado o prédio municipal da Escola Mista do Bairro; era uma escola modelo para a época. 
Em prol do Posto de Saúde do bairro foi realizada a primeira festa do Pastel, em março de 1.993, no barracão da igreja. Referida festa teve a coordenação da doutora Isabel Cristina Vieira, filha de Cassiano Vieira.
Gado leiteiro, de corte, cultura da laranja e mexerica são o forte da economia local, atualmente.
Por estar numa área geográfica delimitada por divisores de águas drenadas por um rio para onde escorrem as águas das chuvas, a represa do Turvinho que lá se localiza e que gera energia elétrica para São Miguel foi incluída no programa Estadual de Microbacias Hidrográficas.
Financiado pelo Banco Mundial e executado pela Secretaria de Agricultura, através da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, a CATI, e em parceria com a Prefeitura Municipal de São Miguel, tem como principal objetivo promover o desenvolvimento rural sustentável de forma a desenvolver a agricultura e a pecuária, garantindo retornos compensatórios aos produtores, preservando o meio ambiente com o mínimo de impactos. Para isso, deverá contar com a colaboração do povo da região. O processo de conscientização é muito longo.
A represa da Usina Elétrica São José, pertencente à Cia. Sul Paulista de Energia, hoje, CPFL Energia, situa-se em topografia elevada em um lugar de rara beleza, e é um magnífico recanto para ser apresentado aos moradores da cidade e turistas ávidos por vivas paisagens verdes. Essa obra foi toda ela projetada pelo engenheiro Renato Scoponi, que inclusive, desenhou a planta da Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo. Foi por isso homenageado com a Praça do Cruzeiro que sai do perímetro urbano e encaminha-se para aqueles lados.
Segundo José da Glória, morador do Bairro de Guararema, contava seu pai João Alexandre Borges que à época da instalação da turbina na primeira usina da Companhia Sul Paulista, no Bairro, foram necessários tantos bois em 40 juntas para puxá-la de Itapetininga para lá. Pesava cerca de 5 toneladas e demorou mais de três meses para chegar ao seu destino.
Constituída em julho de 1.934, a empresa resultou dos esforços pioneiros do setor elétrico que desde 1.912 ajudaram a abrir caminhos para o desenvolvimento da região compreendida entre Itapetininga, Sarapuí, Guareí e São Miguel Arcanjo, além de Gramadinho, Morro do Alto, Rechan e Alambari.
Um trabalho tão grande quão grande a força das tradições que o povo cultiva.
A Escola do Bairro homenageia Maria Inês Marques Mendes.
Galos e galinhas ciscam o dia inteiro pela Praça Jardim da Esperança, obra do povo, bem em frente à Igreja Católica, que, tempos após a sua inauguração, acabou ficando sem as diversas mudas de arbustos raros. Dizem os moradores que gente de fora, os famosos turistas, acabaram furtando tudo.
Só ficaram por ali os bancos de praça lembrando da Casa de Carnes Favoretto, do Bar e Sorveteria Pingüim, do Auto Elétrico Teobaldo, da Nesmaq, da Pharmácia São José e da gestão do prefeito Policarpo Torrell Neto, 1.983/1.988. 
Dois telefones públicos atendem os moradores. Existe uma igreja da Congregação Cristã no Brasil.
No Bairro existem ruas no meio da mata denominadas Rua Ipê, Rua Primavera e Rua das Hortênsias, projetos de um vereador nipônico.
Só que as flores nelas homenageadas...cadê?
No Turvinho residem muitas pessoas vindas de outras cidades como: Valinhos, Jundiaí e Louveira.
Uma placa avisa sobre a propriedade da Usina Turvinho. Outra diz que é proibido nadar no local.
O primeiro Posto de Atendimento a Saúde que funcionou no bairro foi inaugurado em 1.991 com a contratação de dois agentes de saúde.
No ano de 1.995, a Telesp inaugurou lá o Vila Fone Celular. Na época, o comerciante Roque Nishioka fez a primeira ligação para os seus filhos que estavam no Japão.


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